quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Lewis, amor e perda

Por que amar se perder dói tanto?

João Pereira Coutinho, na Folha de S.Paulo.

Conheci C.S. Lewis aos 9 anos. É a idade certa para conhecer Lewis, de preferência se estivermos numa cama de hospital. As noites são longas, as noites são solitárias. Mas quando o livro é "O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa", a única coisa a lamentar são as chegadas das manhãs.Conhecem a história?

Não falo do livro, falo de Lewis. O livro é conhecido: Edmund, Lucy, Peter e Susan descobrem certo dia que o fundo de um velho guarda-roupa não é o fundo de um velho guarda-roupa. É passagem para um outro mundo. Narnia, eis o nome desse mundo, e em Narnia me perdi com eles aos 9, aos 10, aos 11.Só mais tarde descobri a vida do autor: Clive Staples Lewis, nascido em Belfast, educado em Oxford, professor de literatura medieval e renascentista. Amigo de Tolkien. Pregador cristão, depois de uma conversão ao catolicismo (sim, como Graham Greene ou Evelyn Waugh), experiência epifânica que ele conta em "Surprised by Joy". Morte em 1963.Mas a história de Lewis não acaba aqui.

A verdadeira história aconteceu nos últimos anos de vida, quando o celibatário escritor foi surpreendido por uma outra "Joy", não em espírito mas em carne e osso. Joy Gresham, uma leitora americana, cruza o Atlântico para fugir de um casamento arruinado. Traz o filho, que traz os livros para Lewis assinar. Conhecem-se. Tornam-se amigos. E casam por conveniência: Joy necessita da cidadania britânica para ficar no país, Lewis acede ao pedido. Tudo em segredo. Subitamente, Joy adoece. Grave, gravemente. Lewis sabe que a vai perder. E nessa certeza sabe também, pela primeira vez, que está profundamente apaixonado por ela. Casam novamente. Desta vez, aos olhos de Deus e dos outros. Joy parte pouco depois.Essa história de amor tardio subiu aos palcos de Londres e estará em cena até 15 de dezembro.

Se passarem pela cidade, não hesitem: Charles Dance (Lewis) e Janie Dee (Joy) retomam "Shadowlands", a notável peça de William Nicholson que Anthony Hopkins e Debra Winger já ofereceram em filme homônimo.Existem diferenças, claro. A peça tem o humor anárquico que o filme ignora, ou desconhece.

O filme tem o dramatismo sóbrio que só os grandes planos permitem. Mas no palco ou na tela, a trágica ironia de Lewis é a mesma: a ironia de um pregador que disserta teoricamente sobre a importância salvífica do sofrimento; até o dia em que a teoria regressa para o testar com a mais brutal das experiências humanas. E com uma pergunta simples mas fundamental: por que amar se perder dói tanto?A resposta, a única possível, é dada por Joy na peça, quando a morte assombra um breve momento de intimidade terrena. "A felicidade de agora será parte da dor de então".Precisamente. E eu, mudo e parado na platéia do Wyndham's Theatre, sorrio por dentro e agradeço novamente. Na infância, Lewis oferece o encantamento de um outro mundo; na idade adulta, oferece a única certeza deste. A dor que sentimos pelas pessoas que amamos faz parte da felicidade que tivemos. Porque ambas são a condição de ambas.

ps: creio que C.S Lewis era anglicano, mas isto é só um detalhe.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Fubás Natalinos

Será que vou rezar?

Rubens Alves


É. Cada um celebra o que escolhe. Acho que farei uma sopa de fubá que tomarei com pimenta e torradas
SOU UM ADMIRADOR de Gandhi. Cheguei mesmo a escrever um livro sobre ele. Estou planejando convocar os amigos para uma homenagem póstuma a esse grande líder pacifista e vegetariano. Pensei que uma boa maneira de homenageá-lo seria um evento numa churrascaria, todo mundo gosta de churrasco, um delicado rodízio com carnes variadas, picanhas, filés, costelas, cupins, fraldinhas, lingüiças, salsichas, paios, galetos e muito chope. O grande líder merece ser lembrado e festejado com muita comilança e barriga cheia!Eu não fiquei doido. O que fiz foi usar de um artifício lógico chamado "reductio ad absurdum" que consiste no seguinte: para provar a verdade de uma proposição, eu mostro os absurdos que se seguiriam se o seu contrário, e não ela, fosse verdadeiro. Eu demonstrei o absurdo de se celebrar um líder vegetariano de hábitos frugais com um churrasco.Uma homenagem tem de estar em harmonia com a pessoa homenageada para torná-la presente entre aqueles que a celebram. Uma refeição, sim. Mas pouca comida. Comer pouco é uma forma de demonstrar nosso respeito pela natureza. Alface, cenoura, azeitonas, pães e água.Escrevo com antecedência, hoje, 27 de novembro, um mês antes, para que vocês celebrem direito. A celebração há de trazer de novo à memória o evento celebrado.É uma cena: numa estrebaria uma criancinha acaba de nascer. Sua mãe a colocou numa manjedoura, cocho onde se põe comida para os animais. As vacas mastigam sem parar, ruminando. Ouve-se um galo que canta e os violinos dos grilos, música suave... No meio dos animais tudo é tranqüilo. Os campos estão cobertos de vaga-lumes que piscam chamados de amor. E no céu brilha uma estrela diferente. Que estará ela anunciando com suas cores? O nascimento de um Deus?É. O nascimento de um Deus. Deus é uma criança.O nascimento do Deus criança só pode ser celebrado com coisas mansas. Mansas e pobres. Os pobres, no seu despojamento, devem poder celebrar. Não é preciso muito.Um poema que se lê. Alberto Caeiro escreveu um poema que faria José e Maria, os pais do menininho, rir de felicidade: "Num meio-dia de fim de primavera, tive um sonho como uma fotografia: "Vi Jesus Cristo descer a terra. Veio pela encosta do monte tornado outra vez menino. Tinha fugido do céu...'" Longo, merece ser lido inteiro, bem devagar...Uma canção que se canta. Das antigas. Tem de ser das antigas. Para convocar a saudade. É a saudade que traz para dentro da sala a cena que aconteceu longe. Sem saudade o milagre não acontece.Algo para se comer. O que é que José e Maria teriam comido naquela noite? Um pedaço de queijo, nozes, vinho, pão velho, uma caneca de leite tirado na hora. E deram graças a Deus.E é preciso que se fale em voz baixa. Para não acordar a criança.Naquela mesma noite, havia uma outra celebração no palácio de Herodes, o cruel. Ele tinha medo das crianças e mataria todas se assim o desejasse. A mesa do banquete estava posta: leitões assados, lingüiças, bolos e muito vinho... Os músicos tocavam, as dançarinas rodopiavam. Grande era a orgia.É. Cada um celebra o que escolhe. Acho que vou fazer uma sopa de fubá que tomarei com pimenta e torradas. E lerei poemas e ouvirei música. E farei silêncio quando chegar a meia-noite e, quem sabe, rezarei?
Rubens Alves- Folha De São Paulo - 27/11/2007

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

olhares invisíveis

Acostumado a leituras tradicionais e sistemáticas do texto bíblico, a descoberta de Dietrich Bonhoeffer foi muito importante em minha caminhada por uma análise mais afetuosa e amorosa da relação com Deus.

No entanto, a despeito do sentimento de “fraicheur” diante das novas abordagens, me causava profunda estranheza a estrutura daquele livro sobre ética cristã. Por que não abordar de forma clara e direta os dilemas éticos atuais: eutanásia, aborto, sexualidade etc?

As primeiras páginas de sua Ética me causaram e ainda causam estranheza. Aquela obra, que se tratava antes de tudo de uma compilação de algumas aulas e manuscritos escritos na prisão, abordava assuntos aparentemente alheios àquilo que normalmente se espera de um ensaio sobre o tema.

No entanto, nada mais me chamava à atenção do que o tópico sobre o pudor. Qual era o intuito daquele alemão confinado na prisão pelos nazistas em discorrer sobre o pudor quando queria falar sobre ética?

Aos poucos fui percebendo que a ética de Bonhoeffer fora construída sob uma estrutura teológica permeada por conceitos originais como, por exemplo, “a graça barata”. Diante do verdadeiro chamado cristão - “vem e vede” (João 1: 39), “segue-me” ( João 1: 43)- não há meio termo, não há como permanecer indiferente.

O pudor é o pressuposto de uma ética porque ele nos fala do ser humano que enxerga a si mesmo. O ser humano se reconhece em desunião com a divindade e ao seu semelhante. Muito mais do que simples vergonha de nossas partes íntimas, é o reconhecimento de nossa fraqueza.

“É a indestrutível lembrança do ser humano de sua separação da origem, é a dor decorrente desta separação e o desejo impotente de desfazê-la. O ser humano se envergonha porque perdeu algo que faz parte de sua essência original e de sua integridade.”

O ser humano se desfaz na sua fraqueza, na sua intimidade revelada. “O peculiar fato de baixarmos os olhos quando olhos estranhos nos encontram não é sinal de arrependimento por algum erro; é a vergonha que, sabendo-se vista, lembra-se de algo que agora lhe falta, da perdida integridade da vida, conscientizando da sua própria nudez. Agüentar o olhar estranho, como se exige, por exemplo, no juramento pessoal de fidelidade, tem algo de violento, no amor que procura o olhar do outro, há algo de nostálgico.“

O pudor é antes de tudo a consciência do desencontro. A percepção de que a unidade perfeita entre Deus e a humanidade fora quebrada. Quando percebo os olhos do outro, reconheço no meu semelhante, também feito à imagem do Criador, desconforto e estranheza pela unidade quebrada.

“E abriram-lhes os olhos” (Gênesis 3:7). O homem viu que estava nu e se escondeu. O homem buscou resolver o problema a sua maneira, de forma provisória e tresloucada. Folhas de parreira são paliativos que nada escondem. Deus, no entanto lhe deu roupas. De forma amorosa e profética Deus previu Jesus. Falou de um dia em que o mal seria vencido de uma vez por todas.
Da percepção do pudor e vergonha passa-se necessariamente à consciência do pecado, da nudez que me revela.

A revelação cristã, porém, não pode se limita a descrever o pecado, mas fala de um Deus amoroso que tece roupas diante de nossa incapacidade e que nos acolhe amorosamente. Por meio de Jesus posso chegar a Deus sem intermediários. Deixá-lo desnudar minha alma, pois dos meus pecados ele não se lembra mais.

Qualquer ética sem perdão, não passa de um código de regras. A ética de Cristo é aquela da graça e renovação, a ética do reencontro com o Criador. Trata-se da unidade reencontrada, quando posso ser acolhido. Sei que os olhos de Deus não são olhos de condenação, mas olhos amorosos de reencontro.

Realmente os olhos de Deus estão em todo lugar, é impossível escapar desse olhar divino. Porém, contrariamente ao que muitos pensam, são olhos amorosos. Afinal, “quem nos separará do amor de Cristo? Será a tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo ou espada?”(Rom. 8:35)

domingo, 30 de setembro de 2007

Palavras invisíveis

Ainda pequeno aprendi uma técnica de escrita secreta que fascinou minha imaginação durante alguns anos. Com suco de limão preparava uma tinta invisível. Escrevia numa folha branca curtas “mensagens secretas” para meus amigos que só eram visualizadas quando jogávamos algumas gotas de iodo. Era fascinante para todos descobrir o quê estava escrito naquelas páginas em branco, ainda que não houvesse qualquer segredo de Estado a ser desvendado por aqueles aprendizes de espião.

Trocávamos cartas e mais cartas que não diziam nada mais que o trivial. Mas o que estava em jogo não era o trivial, mas a amizade de alguns garotos. Mais de 20 anos se passaram e eu ainda posso lembrar de minha alegria ao receber aquelas curtas missivas dos amigos de outras cidades que conhecera nos acampamentos.

Cada um seguiu seu rumo, hoje mal posso dizer quais eram os nomes daqueles amigos de outros lustros. Porém, na minha caminhada com Deus tenho aprendido o valor do silêncio. Muito mais do que simples repetição de palavras, discursos bem construídos e impostação audível de voz, a oração tem se tornado para mim uma caminhada de amizade delineada por meio de palavras invisíveis.

Quando esqueço dos ruídos de minha alma, quando deixo meu coração ouvir a Palavra de Deus, percebo que Deus pronuncia palavras invisíveis, que só são perceptíveis com o coração. Trata-se de uma realidade relacional e amorosa que não me traz qualquer revelação especial, nenhuma profecia bombástica. As revelações estão na Palavra Escrita, deixado por Deus à sua Igreja, e que me guia em oração.

As palavras invisíveis são escutadas apenas no coração, ouvidas com a ajuda de outro líquido vermelho. Não se trata de iodo, mas do sangue de Jesus. Não falam nenhuma mensagem secreta, mas que sou amado por Deus, independentemente de quem eu sou, independentemente das minhas forças. Enfim, as palavras invisíveis, no silêncio, são a voz de Deus falando da Graça.